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BRASIL, Homem, Filósofo, sociólogo, deus grego,Ídolo: Seu Madruga



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E M A N C I P A Ç Ã O
 

Avenida perimetral sob tênis

    Quem conhece Santo André, no ABC paulista, sabe que a Av. Perimetral é uma via expressa para um trânsito constante, ininterrupto, horroroso. Porém, neste domingo, dia 3-9-2006, uma corrida de 10km tomou a avenida e, enfim, a cidade pôde ser vista com olhos mais alegres.

    Ao invés dos motores, uma multidão que martelava os pés no chão subia e descia os viadutos e passava pela cidade com o som doce e ininterrupto dos tênis, batendo no chão. Ao invés de ganhar a cidade, corria; ao invés de sair de casa para o corre-corre, corria diferentemente, de modo saudável, alegre.

     Se não nos preocupássemos tanto em dominar a natureza, teríamos ela dialogando conosco, não esporadicamente, em um domingo, mas no cotidiano...   



 Escrito por Andershow às 16h53 [ ] [ envie esta mensagem ]



GENEROSIDADE: VIRTUDE PROMETEICA

 Prometeu roubou o fogo dos deuses e entregou aos homens, aliviando seus sofrimentos; para puni-lo, Zeus acorrentou-o, abriu seu corpo do peito ao umbigo, e fez com que uma ave de rapina comesse seu fígado. Não satisfeito, Zeus fez com que o fígado se regenerasse e fez, também, que a ave de rapina descesse do céu e comesse novamente seu fígado e assim para todo o sempre ou até que um mortal oferece-se para ficar em seu lugar. Prometeu foi castigado a ficar preso, sentindo seu fígado ser comido e regenerado, para que, no outro dia, voltasse a ser comido pela ave.

 

                               Prometeu castigado por Zeus: as aves de rapina comiam seu

                                         fígado, que se regenerava e voltava a ser comido no dia seguinte.

 

    Se Prometeu sabia que poderia ser punido, por que roubou o fogo do Olimpo e entregou aos homens? Reza o mito que por amor à humanidade, por filantropia. E se não foi por amor a ela, foi pelo menos por generosidade: Prometeu superou seus próprios interesses e, livre dos mesmos, livre do seu próprio eu, ajudou aos homens. A generosidade é justamente este afastamento do egoísmo, é essa ação de entregar-se a outrem, de ajudá-lo sem exigir nada em troca. Não se trata de troca, já que esta baseia-se no interesse – generosidade é a ação que supera o egoísmo e que nos liberta de nossos próprios instintos, do nosso próprio interesse.

    A generosidade ou a filantropia de Prometeu custou muito a ele. Porém, no nosso cotidiano, é mais fácil ser generoso: não sofreremos tanto se deixarmos nosso egoísmo de lado para ajudar alguém que necessita de ajuda: ajudar um(a) colega entender uma parte da matéria ele que ele esteja com dificuldade, ajudar nossos familiares em afazeres domésticos, ajudar alguém ou alguma instituição em termos financeiros – não se trata de ajudar para receber algo depois, como se fosse uma troca, mas uma doação que fazemos àquele que precisa de nossa ajuda, a generosidade é prometeica.



 Escrito por Andershow às 22h36 [ ] [ envie esta mensagem ]



JUSTIÇA É DIREITO E IGUALDADE

     “Ah! Isso não é justo”.

     Quando sentimos que fomos trapaceados, logo queremos que se faça justiça e que se repare o mal cometido. Se um candidato a presidente tem a maioria dos votos dos eleitores de seu país, é justo que ele seja o presidente e não o segundo colocado; se chegamos em primeiro lugar em uma corrida, é justo que recebamos a medalha de ouro e não a de prata. Isto é, quando queremos que se faça justiça, queremos que as normas sejam respeitadas, que as regras sejam cumpridas: justiça é a ação conforme uma lei previamente aceita por todos os participantes, é a ação conforme ao direito.

     E se a lei que existe não for justa?

     E se a lei discrimina as pessoas por suas raças? Durante muito tempo houve o Apartheid (vida separada, em língua afrikaans) contra os negros na África do Sul, a escravidão do Brasil, a política discriminatória nos Estados Unidos. E se a lei discrimina as pessoas por seu sexo, priorizando um em detrimento de outro? Na Antigüidade Grega, as mulheres eram proibidas de saírem de casa; na Modernidade, por muito tempo elas não tiveram direito ao voto. E se a lei discrimina as pessoas por sua religião? A Inquisição Católica no Ocidente matava quem duvidava dos dogmas católicos. E se a lei protege a desigualdade social e ajuda as pessoas com muito dinheiro explorar as pessoas que não tem tanto dinheiro? Nossas sociedades que privilegiam o dinheiro e não o bem-estar do outro são dessa forma.

    Costumamos dizer que é justo que se combata coisas como estas. Mas elas estão ou estiveram por muito tempo na lei e havíamos definido justiça como conformidade à lei. Se a lei for injusta, é justo combatê-la? Ao lutarmos contra uma lei não estaríamos agindo injustamente? Situações como estas foram freqüentes na nossa história: lutamos contra a invasão portuguesa, a invasão holandesa, contra a escravidão, as ditaduras, a desigualdade social e tudo isso esteve ou está protegido pela lei.

     Por várias vezes, em nome da justiça, lutamos contra a justiça estabelecida, contra o direito. Isso porque a igualdade é o outro lado da moeda da justiça: todos precisam estar sob as mesmas condições e tratados da mesma forma para viverem de modo justo: em uma prova de 100 metros, os atletas devem correr exatamente esta distância para que um vencedor seja justamente definido, se um correr 110 metros, será injustiçado e se outro correr apenas 90 metros, colocará todos os outros em desvantagem. Se há uma vaga de emprego e cinco candidatos, a vaga será preenchida justamente se os candidatos concorreram nas mesmas condições, sem serem discriminados por sua cor, nacionalidade, sexo, religião, classe social... A competência maior de um deles é que será o critério para definir quem ficará com a vaga. E, dos pontos de vista político e social, sobre o direito à terra, por exemplo, é justo que apenas 1% dos proprietários rurais detenham 46% das terras do nosso país, enquanto há cerca de 5 milhões de famílias sem terra no Brasil?

 

Durante longos meses, 2.800 famílias ocuparam a Fazenda Cuiabá, até a desapropriação das terras ser finalmente aprovada. Sergipe, Brasil, 1996. Foto de Sebastião Salgado.

 

     Justiça é algo, portanto, conforme à igualdade. A partir de uma situação que permite a todos as mesmas condições, fazemos normas para que a igualdade seja preservada. A justiça depende da igualdade de condições e das leis que preservem esta igualdade. Se estas leis não forem respeitadas, a desigualdade acontece; isto é, sem leis e sem igualdade, vivemos injustamente.

 Escrito por Andershow às 21h14 [ ] [ envie esta mensagem ]



TOLERÂNCIA

    Suponhamos que um professor faz uma pergunta para a sala: a mesma pergunta é respondida de maneira diferente por cinco alunos, isto é, o problema a ser resolvido tem cinco possibilidades de ser resolvidos e não sabemos, até que o professor diga a resposta, qual é o caminho correto. Justamente por não sabermos como as coisas são, precisamos respeitar a posição assumida pelas outras pessoas, já que não sabemos se somos nós ou se são elas que dizem a verdade.

    É este o desejo do filósofo francês Voltaire (1694-1778) quando escreveu que “somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices”[1]. A diversidade de opiniões mostra nossa fraqueza teórica, nossa incapacidade científica para explicar as coisas e, dessa forma, convivemos com diferentes pensamentos sobre os mais diversos assuntos. A humanidade não chegou a um acordo, por exemplo, sobre que Deus cultuar ou, mesmo, se Ele de fato existe: existem católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas, hindus, ateus... Quem está certo? Como saber?

      Só há um meio para convivermos juntos se pensamos de modo tão diferente: a tolerância. Tolerar é não proibir, não condenar e não impedir algo que não concordamos: podemos torcer, por exemplo, para o time de futebol do Santo André sem matar os torcedores do São Caetano; podemos gostar de rock sem recriminar os que gostam de pagode; podemos votar no Partido A sem brigar com os partidários do Partido B. Não condenar, não proibir e não impedir a existência e a ação de pessoas que pensam de modo diferente do nosso é a superação do egoísmo, a superação de nosso próprio interesse, é a ação contra nossas paixões e a favor de outrem – é neste ponto que a tolerância assemelha-se com a coragem: ambas são virtudes de renúncia ao nosso próprio eu.

    Mas há o outro lado da moeda: se não tolerar a diferença não é virtude, tolerar tudo também não o é. Não consideramos virtuoso um policial que não impede um criminoso de agir, assim como não é virtuoso um professor preguiçoso que nunca apresente o modo certo de resolver um problema e tolere todos os erros de seus alunos, nunca ensinando-os como resolver a uma questão de modo verdadeiro. Nestes casos, o policial, o criminoso e o professor que não superaram seus próprios interesses. Tolerância é virtude por superação de nosso egoísmo: um ladrão é egoísta, um professor e um policial que não trabalham também; o professor deve mostrar ao seu aluno o modo correto de resolução do problema, o policial enfrentar o criminoso e este, por sua vez, conquistar o que quer respeitando o outro, não o agredindo. Não é possível tolerar tudo, nem não tolerar nada.



[1] VOLTAIRE. “Tolerância” in Dicionário filosófico (Os Pensadores). Tradução de Marilena de Souza Chauí Berlinck, São Paulo: Abril Cultural, 1° edição, 1973, p. 296.



 Escrito por Andershow às 12h43 [ ] [ envie esta mensagem ]



RAMALHÃO É SÓ ALEGRIA

Copa Libertadores - Estádio Bruno José Daniel
2X1


 Escrito por Andershow às 21h01 [ ] [ envie esta mensagem ]



OHOHOHOH RAMALHÃO EOHOHOHOHOH

3X2
Data: 23/03/2005
O campeão da copa do Brasil venceu ao campeão brasileiro: somos os melhores do Brasil.

 Escrito por Andershow às 10h06 [ ] [ envie esta mensagem ]



GLÓRIA AO MELHOR PROGRAMA DE TODOS OS TEMPOS

Chaves - Volume 1 (Turma do Chaves)

 Escrito por Andershow às 22h55 [ ] [ envie esta mensagem ]



ELE VOLTOU



CHAVES ESTÁ DE VOLTA: AGORA SIM TODOS PODEMOS GOZAR DE BOAS FÉRIAS.

 Escrito por Andershow às 10h09 [ ] [ envie esta mensagem ]



E no oitavo dia, Deus fez ANDERSHOW

Após muitos pedidos, o autor de todas as teoria conspiratórias deste blog assumiu o risco de dar as caras.



 Escrito por Andershow às 20h40 [ ] [ envie esta mensagem ]



DEMOCRACIA REPRESENTATIVA: UMA ARISTOCRACIA

Eis um dos maiores golpes da história. Ao votarmos legitimamos um domínio que recai sobre nós mesmos. Temos de reconhecer, o golpe é perfeito: quem somos nós que saímos de nossas casas para delegar nossa vontade para alguém com tanto entusiasmo?

Max Weber trabalhou muito bem o conceito de legitimidade do domínio. Trago este conceito à tona para considerar que somos nós que, na medida que escolhemos um candidato, legitimamos o domínio que recai sobre nós mesmos: caminhamos para nossas covas ao depositar um voto de confiança a qualquer um. O que tenho a dizer não é novo e é isso o mais irritante, aliás o argumento nem é meu, está no Contrato Social do Rousseau: a vontade não se delega, ninguém pode representá-la por nós.

São muitos os candidatos e somos impelidos a escolher um entre eles. Escolhe-se o que se julga melhor (aristoi) - ora, não é isto uma aristocracia? Escolhe-se um candidato como escolhe-se qualquer outra mercadoria - e a democraia representativa é, assim, consoante com o capitalismo. Democracia ou é direta ou não é democracia.



 Escrito por Andershow às 17h57 [ ] [ envie esta mensagem ]



Volta, Chaves!

Seu Madruga

 
Não há nada para ver na porcaria da televisão. Nos esportes, a monocultura do futebol voltou à tona com o fim das olimpíadas. No entretenimento, a única coisa interessante continua a ser Os Simpsons. No jornalismo, tudo é um lixo.
 
E o pior, estamos órfãos do melhor programa de todos os tempos. Mande você também um email para o sbt exigindo a volta do Chaves.


 Escrito por Andershow às 21h59 [ ] [ envie esta mensagem ]



IMAGENS PARA O OCIDENTE, IMAGENS PARA O ABC: ODE AO VOTO NULO.

     Narciso adorava contemplar-se, mesmo sabendo que perderia a imortalidade. Porém, nós ocidentais, não gostamos muito de olharmos nosso próprio modo de ser; e mais, alguns de nossos melhores pensadores, ao ofereceram as imagens precisas de nossa ontologia, acabaram por se tornar mais um aspecto do problema – são ocidentais contemplando suas deformações. Narciso contempla-se, o Ocidente mascara-se.

    Tomas Morus, no século XVI, preferiu mostrar-nos a ilha de Utopia, virtuosa pela ausência da propriedade privada, do dinheiro e dos problemas sociais que daí decorrem, este não-lugar serviu como imagem ideal e alternativa à Modernidade que se iniciara; porém, se o conteúdo econômico da república ideal de Tomas Morus é emancipatório, o mesmo não se pode dizer do político: tal como o pseudo-socialismo que se construiria séculos depois, a falta de liberdade é-nos explícita – horários rígidos e controlados para atividades do dia-a-dia, pessoas que se vestem igualmente, liberdade de ir-e-vir regulada pelo governo. A rigor, já aqui se colocara o problema que não resolvemos até hoje, a saber, quando solucionamos o problema da distribuição, mascaramos o da eficiência e o da liberdade e, ao tentarmos resolver estes, distribuímos desigualmente os bens.

     Diderot, no século XVIII, preferiu mostrar-nos o Taiti ao Ocidente, ótimo recurso literário que acabou por mostrar mais o segundo que o primeiro. O Taiti, recém-descoberto, é exposto a partir do choque cultural entre nativos e colonizadores: enquanto lá se vive muito próximo da “natureza” e, portanto, da felicidade; os franceses (e o Ocidente por extensão) afastaram-se da natureza e criaram códigos propriamente antinaturais: as leis e a religião. A imagem que é trabalhada aqui é de um conflito no Ocidente entre três esferas: a natural, a civil e a religiosa – para conduzirmo-nos por uma, encontramo-nos em contradição com as outras. O Ocidente é visto como artificialidade, como o reino da infelicidade. Tomas Morus leva o Ocidente às águas claras de um riacho e faz com que ele veja seus problemas econômicos, Diderot força-o a ver seus problemas políticos e da vida privada: no amor, por exemplo, ao orientarmo-nos pelos códigos civil e religioso, deixamos a natureza de lado e caímos na convenção do casamento.

     Samuel Huntington, para falarmos dos últimos acontecimentos, trabalha a imagem de nossos problemas culturais: o capitalismo ocidental, mercantilizando e racionalizando todos os âmbitos da vida pelo cálculo, leva a “cultura de Davos” a todos os cantos do planeta – ocidentaliza a fórcipes os não-ocidentais e globaliza um estilo de vida insuportável para muitas culturas. A reação do mundo não-ocidental salta aos olhos: ressurgimento e fundamentalismo religiosos, em especial, o islâmico, funcionam como bandeira de luta contra as mazelas que intoxicam todos os lugares invadidos pelo Ocidente. Huntington faz o Ocidente reconhecer sua culpa pelos conflitos atuais – somos terroristas a intoxicar o mundo com o capitalismo.

    José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira e em Ensaio sobre a lucidez, oferece uma imagem de nossa vida sórdida: procuramos impulsionar o que chamamos de democracia para todo o mundo, mas aqui mesmo, em nossos países liberais e laicos, a democracia é submersa diante dos problemas criados nas duas ficções: na primeira, uma cegueira estende-se por toda a cidade e para tentar contê-la, o governo coloca em reclusão todos os cegos, privando sua liberdade cada vez mais; na segunda, com 83% da população de uma cidade votando em branco, o governo promove ações terroristas contra os cidadãos e investiga-os como em uma ditadura. Saramago mostra-nos o quão antidemocráticos somos – ei-nos, os ditadores.

    Se Narcísio vai contemplar-se nas águas do rio, o Ocidente vê sua imagem corromper as águas. Tais imagens são os problemas que temos, também, aqui, no Grande ABC: diariamente, os jornais mostram-nos os bolsões de miséria espalhados de Diadema a Rio Grande da Serra, administrações públicas descoladas dos interesses da população, um modo de vida calculista que se sobrepõe sobre aspirações individuais, apelos gratuitos e saudosistas por autoritarismo.  Tais problemas permeiam todo o Ocidente e resolvê-los é uma tarefa que se impõe para além da imanência do funcionamento tradicional da sociedade: olhemo-nos. Olhemo-nos para nos ver, para não entregarmo-nos a nenhum dos cretinos que querem usurpar-nos de nossa própria representação. Votai nulo, meus camaradas!

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 Escrito por Andershow às 18h35 [ ] [ envie esta mensagem ]



EU, ETIQUETA

 

Eu, etiqueta

 

Em minha calça está grudado um nome

que não é meu de batismo ou de cartório

um nome... estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

que jamais pus na boca, nesta vida.

Em minha camiseta, a marca de cigarro

que não fumo, até hoje na fumei.

Minhas meias falam de produto

que nunca experimentei

mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

de alguma coisa não provada

por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

minha gravata e cinto e escova e pente,

meu copo, minha xícara,

minha toalha de banho e sabonete,

meu isso, meu aquilo,

desde a cabeça ao bico dos sapatos,

são mensagens,

letras falantes, gritos visuais,

ordens de uso, abuso, reincidência,

costume, hábito, premência, indispensabilidade,

e fazem de mim homem-anúncio itinerante,

escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

É doce estar na moda, ainda que a moda

seja negar minha identidade,

trocá-la por mil, açambarcando

todas as marcas registradas,

todos os logotipos do mercado.

Com que incidência demito-me de ser

eu que antes era e me sabia

tão diverso de outros, tão mim-mesmo,

ser pensante, sentinte e solidário

com outros seres diversos e conscientes

de sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio,

ora vulgar ora bizarro,

em língua nacional ou em qualquer língua

(qualquer, principalmente).

E nisto me comprazo, tiro glória

de minha anulação.

Não sou – vê lá – anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

para anunciar, para vender

em bares festas praias pérgulas piscinas,

e bem à vista exibo esta etiqueta

global no corpo que desiste

de ser veste e sandália de uma essência

tão viva, independente,

que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora

meu gosto e capacidade de escolher,

minhas idiossincrasias tão pessoais,

tão minhas que no rosto se espelhavam,

e cada gesto, cada olhar,

cada vinco da roupa

resumia uma estética?

Hoje sou costurado, sou tecido,

sou gravado de forma universal,

saio da estamparia, não de casa,

da vitrine me tiram, recolocam,

objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

de ser não eu, mas artigo industrial,

peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem,

meu nome novo é coisa.

Eu sou a coisa, coisamente.

 

DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. O Corpo. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1984, pp. 85-87.



 Escrito por Andershow às 22h27 [ ] [ envie esta mensagem ]



SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS

“Se os tubarões fossem homens”, perguntou ao Senhor Keuner a filha de sua caseira, “eles seriam mais gentis com os peixes pequenos?” “Certamente”, disse ele. “Se os tubarões fossem homens fariam construir resistentes caixas no mar para os peixes pequenos, com todos os tipos de alimento dentro, tanto vegetais quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas sempre tivessem água renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente lhe fariam uma atadura, a fim de que não morresse aos tubarões antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, dariam cá e lá uma festa aquática; pois os peixes alegres têm gosto melhor que os tristonhos. Naturalmente também haveria escola nas grandes caixas. Nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a Geografia, a fim de poder encontrar os grandes tubarões deitados preguiçosamente por aí. A aula principal seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando estes dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se inculcaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciar imediatamente aos tubarões, se qualquer deles manifestasse essas inclinações. Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si, a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre eles e os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo, por isso, impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho, que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos, da outra língua de peixinhos silenciosos, seria condecorado com uma pequena Ordem das Algas e receberia o título de herói. Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte. Haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam, como valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões. A música seria tão bela, que os peixinhos, sob seus acordes, a orquestra na frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões, sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que só na barriga dos tubarões é que começaria, verdadeiramente, a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos. Alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam, inclusive, comer os menores. Isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim, mais constantemente, maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos, velariam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar. Se os tubarões fossem homens.”

BERTOLD BRECHT 

Tradução: Marcelo Backes                                       

Digitação: Glaucião



 Escrito por Andershow às 22h00 [ ] [ envie esta mensagem ]



É CAMPEÃO. O MARACANAZZO ANDREENSE.

SOMENTE DUAS SELEÇÕES CALARAM O MARACANÃ: O URUGUAI, EM 1950, E O SANTO ANDRÉ, EM 2004. GLÓRIA AO RAMALHÃO DA VILA PIRES!

 

"Santo André do Coração"
Letra e Música:
José da Conceição Souza

Santo André do coração
Dentre os clubes o maior
Uma equipe de valor
Pra defender o nosso futebol

Tuas cores nos encantam
Em cada lance a torcida se levanta
Num movimento de bandeiras
Em coro te saúda, vibra e canta

Salve! Salve! ó grandioso
Esporte Clube Santo André
Salve! Salve! ó glorioso
Santo André da minha fé

De João Ramalho a tradição
Pois traz no peito o seu brasão
És lutador, grande guerreiro, és valente
No esporte rei, és campeão, és campeão

Tuas cores nos encantam
Em cada lance a torcida se levanta
Num movimento de bandeiras
Em coro te saúda, vibra e canta

Salve! Salve! ó grandioso
Esporte Clube Santo André
Salve! Salve! ó glorioso
Santo André da minha fé

 



 Escrito por Andershow às 20h48 [ ] [ envie esta mensagem ]