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DRUMOND ENLATADO: UM CASO DE ARTE MERCANTILIZADA
Escreveu Drumond:"Quem teve a idéia de contar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo muito genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entre o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e vontade de acreditar que daqui para adiante, vai ser diferente".
O poeta teve mérito de demonstrar a ideologia da esperança: todo ano que se inicia, permeado por um otimismo bitolado e, às vezes, unilateral, pode ensejar grandes decepções. Quiçá, a melancolia desta demonstração de Drumond seja um dos seus pontos de vista mais críticos de sua obra. Porém, ao assistir a peça Coração Bazar, no Sesc de Santo André, vi como o mercado (neste caso, a industria cultural) reduz o potencial crítico de um texto clássico para integrá-lo à ordem: 1) coloca-se uma atriz televisiva (Regina Duarte) para fazer um monólogo citando vários autores; 2) mesmo quando os textos parecem não ter um desfecho doce para a personagem, a atriz faz a representação sorrindo até o fim e com uma voz deveras suave, e, tamanha é a qualidade da representação, que a suavidade da voz nunca parece embotar-se e o sorriso nunca parece amarelo; 3) o figurino é composto, inicialmente, com uma vestimenta espalhafatosa, cheia de cores e, em seguida, roupas que parecem convidar o público a um sono tranqüilo; 4) o cenário apresenta uma pano de fundo que embarga nossa potência de enxergar uma solidão no palco, mesmo que a peça seja um monólogo; 5) os temas compõem-se de textos acerca do amor - sempre reduzindo os autores citados (Drumond, Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Cecilia Meireles, Clarice Lispector...) a questões veementemente subjetivistas; 6) o próprio público, sempre passivo e encerrado pelo teatro (ver Rousseau: Carta a D'Alembert), no escuro, aceita tudo, regozija-se rindo de um momento que há a apresentação de uma personagem que tem uma posição muito pessimista acerca do casamento - aliás, o riso, em Hobbes e em Bergson, é expressão de que sentimo-nos superiores em relação ao objeto do riso - a peça parece indicar que, sempre, há solução para tudo; 7) um sábado, à noite, no ABC Paulista, para quem quer sair de casa, apresenta bons restaurantes e baladas - a peça acaba sendo uma "entrada" para a refeição ou, no meu caso, a própria balada da noite -, o conteúdo pouco importa; 8) os próprios textos já aparecem purgados por tudo isto: foram comprados pelo público, que guarda o bilhete de entrada para o espetáculo, junto com o folder, muito orgulhoso, para ver tais textos saindo da voz doce de uma atriz global e serem consumidos por ouvidos passivos; 9) do ponto de vista emancipatório, aliás, não podemos exigir muito de um espetáculo teatral, como afirmam Platão e Rousseau: o público reforça suas próprias paixões no teatro, trata-se de reforço, não de uma inclinação para mudar a realidade a partir de uma peça, como querem Diderot, Brecht, Sartre... - ninguém entra eum um teatro para fazer a revolução; 10) caso não tivesse consumindo a peça, o público poderia, naquele momento, consumir um filme, uma novela ou qualquer mercadoria da indústria cultural.
Estes dez tópicos acima ratificam as teses da Teoria Crítica e a usa como subjacência: após a Dialética do Esclarecimento (Horkheimer e Adorno), o The Unidimensional Man (Marcuse), A Obra de Arte na Época de suas Técnicas de Reprodução (Benjamin) e outros textos, não podemos ter a ilusão de que consumir arte significa, necessariamente, contribuir com a emancipação humana. O caso da peça acima comentada, contribuiu, mediante as artimanhas da indústria cultural, apenas, com o capitalismo.
Um grande abraço,
Anderson.
Escrito por Andershow às 20h55
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