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A CARTOMANTE - ENSAIO SOBRE ALCANCES E LIMITES DO POTENCIAL EMANCIPATÓRIO DO CINEMA
Há uma esterelidade antiga em discussões que analisam um filme quando este é inspirado na literatura. Comento o filme, em cartaz no circuito comercial, A Cartomante, inspirado no conto de Machado de Assis, de mesmo título. A discussão que considero estéril é aquela da dúvida que tenta conferir maior valororação estética ao filme ou ao texto em que o mesmo se baseia. Afinal, houve apenas inspiração - o filme não seguiu rigorosamente a lógica do conto e criou seus próprios artifícios, como uma psiquiatra que surpreende a todos ao final do filme.
Para discutir apenas uma parte do problema e, assim, não ser prolixo, concentremo-nos em como as personagens atuaram no filme e no conto. O primeiro usou a câmera como função narrativa, isto é, as imagens recortadas pelas câmeras "escreveram" ao focalizarem uma imagem, ao recortá-la, aproximá-la ou distanciá-la, descrevê-la ou obscurecê-la (ROSENFELD, Anatol. "Literatura e personagem" in (vários) A Personagem de Ficção". São Paulo: Editora Perspectiva, 10 edição, 2002). A narrativa pela câmera fez o cinema, agindo de tal modo, discernir-se, também, do teatro, já que este tem como subjacência o corpo do ator e a própria atuação deste diante da platéia, sem o recorte da câmera.
Já na literatura, mais precisamente em um romance, são as orações que subjazem a narrativa: do texto há a formação ontológica das personagens que adentram no imaginário do leitor, há uma coerência interna na narrativa que garante o bom andamento da narrativa, há palavras e orações que fazem com que aproximemo-nos ou distanciemo-nos das personagens (em, A Cartomante, Machado de Assis escreveu: "Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: - ao fundo, sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.").
Desse modo, nossa discussão bifurca-se: imagem obtida pela câmera ou oração. Cinema ou Literatura. Do ponto de vista deste blog, preocupado com a potência emancipatória (ou impossibbilidade de tal), mais vale a discussão entre estas duas linguagens artísticas que a esterilidade de uma comparação entre o filme e o conto. Sociologica e epistemologicamente, o filme, por sua estrutura interna, embarga uma leitura mais crítica por parte do público - as imagens sucedem-se umas às outras sem que haja tempo para pensarmos em cada uma delas - as imagens oprimem-nos; já o conto, o texto, permite que fiquemos o tempo que quizermos em cada oração, em cada palavra, potencializando a reflexão de um modo mais aguçado (a fixação da palavra escrita foi, aliás, uma das causas da origem da Filosofia na Antigüidade Clássica). Sartre, em Que é a Literatura, acredita que o engajamento da literatura é maior em relação às outras artes como a a pintura, a escultura e a música - o escritor lida com os próprios significados (conteúdos) e retira da primazia o que, em arte, conhece-se como forma. Aliás, dentro da própria literarura, o engajamento da prosa tende a ser maior que o da poesia pela mesma razão. Entre o conteúdo do texto e a forma da imagem, o engajamento do primeiro parece ser maior.
Nada disso significa que o Cinema não tenha engajamento ou potencial emancipatório; significa, apenas, que tem em menor grau que a Literaruta. Ademais, uma arte de massas, feita para ser consumida em série, dentro de um shopping, acompanhada de pipoca e refrigerante, aproximando-se deveras do que se chama entretenimento, parece ter outra perda significativa do seu potencial emancipatório.
Escrito por Andershow às 17h58
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