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A B A I X O A S E S C O L A S. V I V A O R O C K !
Abaixo as escolas. Viva o rock!
É muito comum, e até um clichê, assistirmos a filmes cuja narrativa é um professor agindo de um modo surpreendente, ganhando o coração dos alunos e, a partir daí, constituindo uma relação muito aprazível com seus alunos. Em função dos inúteis currículos que se caracterizam por uma verborragia de conteúdos sem sentido para um público escolar que vai da infância à adolescência, estes filmes fazem muito sucesso com a fórmula de transcender a imanência de um pseudo-conhecimento mediante a reformulação das aulas com a introdução de novos objetos de estudo.
Comento o filme Escola de Rock, em cartaz nos cinemas: um falso professor consegue um trabalho como professor e decide ensinar rock a alunos de uma escola que tem alunos oriundos de altos estratos sociais dos EUA. Que importância tem aprender função de segundo grau? O movimento das placas tectônicas? Ou qualquer um dos conteúdos esdrúxulos que há nas escolas de hoje? Por que não rock? Todos nós, alunos ou ex-alunos, não nos lembramos, se pensarmos naquele tempo em que estávamos na quinta série do ensino fundamental, das idiotias "ensinadas" na escola; o que guardamos é o que realmente foi importante: o currículo oculto - excursões, passeios, viagens de formatura, nossos colegas, o primeiro namoro...
Foucault teve muito mérito em demonstrar como as escolas "tornam os corpos dóceis", disciplinando as crianças para uma sociedade tecnocrata e, assim, fazendo da escola uma das instituições mais conservadoras e repressoras da história do Ocidente - basta ver a arquitetura panóptica de qualquer escola, todas assemelham-se a presídios. Ainda seguindo Foucault, podemos analisar os funcionários da escola agindo como os ditadores que as crianças materializam nos seus imaginários quando tentam materializar a palavra "poder" - contra elas existem os diretores, os professores, os recreacionistas... O poder microfísico de cada um destes profissionais da "educação" carcerária ajusta cada uma das crianças à sociedade, ao capitalismo. Em poucas palavras, as escolas servem para "vigiar e punir".
Horkheimer e Adorno não se cansaram em acusar o Iluminismo de vários vícios, as teses da Teoria Crítica parecem irrefutáveis. Mas até um dos maiores iluministas, Jean-Jacques Rousseau, acusou a ciência, a cultura ocidental, as escolas de serem uma instituição que embarga a liberdade. Em Julie ou La Nouvelle Héloïse, Rousseau propõe uma diminuição radical da quantidade de conteúdos - ensinar menos, mas ensinar de verdade: "(...) Portanto, não fiqueis surpresa com as supressões que faço em vossas leituras precedentes, estou convencido de que é preciso restringi-las para torná-las úteis, e vejo a cada dia melhor que tudo aquilo que nada diz à alma não é digno de vos ocupar"(...). A ciência não é neutra; mui longe disso, guia-se por interesses e, assim, serve a estratos sociais que a mantém: o número absurdo de conteúdos que os professores precisam trabalhar, oprimidos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, serve ao embargo da reflexão por parte dos estudantes e inclina-os à memorização de tudo que é imprestável: análise sintática, História da Mesopotâmia, trigonometria, querelas entre correntes filosóficas...
Por isso, o filme acima citado causa-nos emoção no momento em que, ao som de Bonzo Goes To Bitburg, dos Ramones, o professor, demonstrando que coisas como a Matemátca não servem para muita coisa e, ensinando Rock a seus alunos, monta uma banda com eles: neste ínterim, os alunos, de apenas dez anos de idade, ganham pensamento crítico para agir no mundo governado pelo "homem" - o homem que transformou a música em mercadoria, a natureza em mercadoria, a cultura e, ainda, o próprio homem em mercadoria. As crianças usam a energia do rock contra a escola, contra a sociedade.
Faz-me mister outra sociedade, outra escola, caracterizada pelo próprio significado da palavra, de origem grega: escola é um lugar para se fazer algo que se goste, em um tempo livre. Mas a velha aporia persiste: a sociedade deformada pela escola poderá transformá-la de qual modo, se já está desditosamente deformada?
Deixo um forte abraço a todos os meus alunos, que são meus professores nas matérias que verdadeiramente importam, a felicidade e a liberdade.

Escrito por Andershow às 20h40
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