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"SEJAMOS REALISTAS, PEÇAMOS O IMPOSSÍVEL"

Eis um daqueles livros que podemos ler sobre as perspectivas da fantasia e do realismo. Aliás, todas as vezes que um pensamento tem um poder de trabalhar com termos opostos, o resultado é ótimo. Tenho alguns exemplos: 1) na Filosofia, Heráclito é o maior mestre nesta arte ("O contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia", Fragmento 8): o filósofo vê que os opostos, embora opostos, estão em igualdade e harmonia - algo é, e é em oposição ao não-ser, que aos poucos o nadifica, assim como a primavera que, ao mesmo tempo que é, é corrompida pelo verão que, além de estar em oposição a ela, a supera, e harmonicamente transforma-a em um não-ser; 2) na literatura, Kafka e Grabiel García Márquez são mestres insuperáveis: conseguem naturalizar, aos poucos, situações absurdas - entramos de tal forma no ambiente dos romances que somos conduzidos até o limite de considerarmos os textos como não-fantasiosos.
Saramago, neste novo romance, segue a mesma lógica do Ensaio sobre a Cegueira: li os dois com uma abordagem sociologizante, e mais, apaixonadamente antigovernamental. Não contra este ou aquele governo, mas contra o governo. Em especial, o Ensaio sobre a Lucidez vai diretamente ao núcleo de uma questão candente ao nosso tempo: todos os cidadãos de uma cidade votam em branco e, sem qualquer bom motivo para eleger mais um governo deste ou daquele partido, recusam o governo como tal. Do ponto de vista literário, o primeiro destes ensaios é apaixonante; do ponto de vista político, é o segundo que purga a alma, aparentando um Maio de 68 que deu certo, uma ação direta que nem ao menos propagandeada precisou ser. Simplesmente, uma recusa do servir, um não ao poder. Do ponto de vista emancipatório, os dois ensaios são leitura obrigatória.
Cegueira e lucidez: na lucidez, estamos cegos; na cegueira, construindo a lucidez.
Escrito por Andershow às 22h41
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