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E M A N C I P A Ç Ã O
 

RAZÃO OCIDENTAL E PERDA DE SENTIDO: WEBER E AS ESFERAS DE VALOR (PARTE 2)

     (Leia a parte 1 antes, no post abaixo, por favor: o texto só foi separado pela falta de espaço para postar)

     Com efeito, cada esfera de valor tem, no Ocidente, sua própria legalidade. Desenvolveu-se a possibilidade de divisar uma questão a partir de um ponto de vista científico, econômico, político, estético, religioso... Ademais, dentro de cada esfera, verificamos a formação de um ponto de vista específico: na ciência, por exemplo, notamos a divisa de um mesmo objeto a partir de um ponto de vista sociológico, antropológico, biológico. Isto é, a autonomização das esferas trouxe-nos conseqüências desafiadoras: a fragmentação da vida social no Ocidente moderno dificultou a integração de um discurso da verdade, já que as esferas de valor, caracterizadas pela autocertificação, independem das outras. Uma consideração que leve em conta a totalidade da vida social ficou embargada pelo grau de complexidade das esferas de valor: os sujeitos não puderam mais apreender o mundo de forma totalizante; assim, não podem, ao menos, encontrar um sentido para suas vidas, já que a desintegração das esferas de valor eliminou a experiência de valores unificados para a regulação da vida, algo que as religiões fizeram anteriormente à Modernidade, como apontou Weber em Rejeições religiosas do mundo e suas direções. Ademais, perdemos até um sentido para a morte, como Weber apontou em Ciência como vocação: “(...) Para o homem civilizado, a morte não tem significado. E não o tem porque a vida individual do homem civilizado, colocada dentro de um ‘progresso infinito’, segundo seu próprio sentido imanente, jamais deveria chegar ao fim; pois há sempre um passo à frente do lugar onde estamos, na marcha do progresso. E nenhum homem que morre alcança o cume que está no infinito. Abraão, ou algum camponês do passado, morreu ‘velho e saciado da vida’, porque estava no ciclo orgânico da vida; porque a sua vida, em termos do seu significado e à véspera dos seus dias, lhe dera o que a vida tinha a oferecer; e, portanto, poderia ter tido o ‘bastante’ da vida. O homem civilizado, colocado no meio do enriquecimento continuado da cultura pelas idéias, conhecimento e problemas, pode ‘cansar-se da vida’, mas não ‘saciar-se’ dela. Ele aprende apenas a minúscula parte do que a vida do espírito tem sempre de novo, e o que ele aprende é sempre algo provisório e definitivo, e portanto a morte para ele é uma ocorrência sem significado. E porque a morte não tem significado, a vida civilizada, como tal, é sem sentido; pelo seu ‘progresso’ ela imprime à morte a marca da falta de sentido”[1].



[1] _______. “A Ciência como vocação” in Op. cit., p. 166.



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RAZÃO OCIDENTAL E PERDA DE SENTIDO: WEBER E AS ESFERAS DE VALOR (PARTE 1)

     Pretendo com este artigo e com os das próximas semanas pensar a característica da racionalidade ocidental e o limite do seu potencial emancipatório. Ao usarmos esta racionalidade não estaríamos, aprioristicamente, assimilando a Modernidade? Não me abandone nesta empresa, incansável leitor; na semana que vem, discutirei tais problemas sobre a especificidade da esfera estética e, em especial, a música.

     Na introdução de A ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber expôs o papel que a racionalidade representou para o Ocidente; mais que isto, a racionalização existente no Ocidente é o que lhe peculiariza[1]. À guisa de introdução à discussão, vejamos como alguns casos expostos pelo próprio Weber: na esfera do conhecimento, só no Ocidente houve uma forte fundamentação matemática para a Astronomia, provas racionais para a Geometria, métodos experimentais para as ciências naturais, métodos sistemáticos para as ciências humanas. Na esfera da arte, só no Ocidente desenvolveu-se uma música racional (seja o contraponto ou a harmonia), só a arquitetura ocidental usou racionalmente a abóbada gótica ao distribuir peso e cobertura de espaços. Na esfera da política, só no Ocidente foi possível a existência de um estado estamental (Standestaat): parlamentos e associações políticas, constituições racionalmente dirigidas, direito racionalmente ordenado com uma administração impessoal e orientada por regras racionais.

     Em O discurso da Modernidade, Habermas, comentando Weber, enfatizou a relação proposta por ele entre o Ocidente e o racionalismo: uma vez que as ciências ganharam autonomia dos fatos extra-científicos, uma vez que regularam sua constituição mediante aspectos propriamente matemáticos e metodológicos, recorreram à formação de um estatuto independente de outras esferas para sua certificação, isto é estabeleceram-se como tais recorrendo a uma legalidade interna. O mesmo aconteceu com as outras esferas, vejamos os casos da economia, da política e da arte, segundo um outro texto de Weber, a saber, Rejeições religiosas do mundo e suas direções: 1) na economia, sua organização funcional orienta-se por preços monetários no mercado. “O cálculo não é possível sem a estimativa em preços em dinheiro e , daí, sem lutas nos mercado. O dinheiro é o elemento mais abstrato e ‘impessoal’ que existe na vida humana. Quanto mais o mundo da economia capitalista moderna segue suas próprias leis imanentes, tanto menos acessível é a qualquer relação imaginável com uma ética religiosa da fraternidade. Quanto mais racional, e portanto impessoal, se torna o capitalismo, tanto mais ocorre isso”[2]. 2) Na política, “o aparato burocrático estatal, o homo politicus racional integrado no Estado, administraram as questões, inclusive a punição do mal, quando realizam transações no sentido mais ideal, segundo as regras racionais da ordem estatal. Nisso, o homem político age exatamente como o homem econômico, de uma forma objetiva, ‘sem preocupação da pessoa’, sine era et studio, sem ódio, e portanto sem amor. Em virtude de sua despersonalização, o Estado burocrático, sob aspectos importantes, é menos acessível à moralização substantiva do que as ordens patriarcais do passado, por mais que as aparências possam indicar o contrário”[3]. 3) Na estética, Weber diagnosticou a separação entre a arte no Ocidente e os “efeitos mágicos”: “O desenvolvimento do intelectualismo e da racionalização da vida modifica essa situação (a dos efeitos mágicos). Nessas condições, a arte torna-se um cosmo de valores independentes, percebidos de forma cada vez mais consciente, que existem por si mesmos. A arte assume a função de uma salvação neste mundo, não importa como isto possa ser interpretado. Proporciona uma salvação das rotinas da vida cotidiana, e especialmente das crescentes pressões do racionalismo teórico e prático”[4].

    

[1] WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução de M. Irene de Q. F. Szmrecsányi e de Tomás J. M. K. Szmrecsányi, São Paulo, Editora Pioneira, p. 11.

[2] ______. “Rejeições religiosas do mundo e suas direções” in Ensaios de Sociologia. Tradução de Waltensir  Dutra, Rio de Janeiro: Zahar Editores, pp. 379-380.

[3] Op. cit., p. 382.

[4] Op. cit., p. 391.



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