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Continuação - 2
Amigo leitor: este é o último post que programei sobre música. Aqui, aproveitei as contribuições da teoria crítica adorniana para expressar a perda do potencial emancipatório da música, em especial, a perda do seu conteúdo mimético e a sua colonização pela forma mercadoria (fetichismo). Comece a leitura pelo post cujo título é Fetichismo da mercadoria e música fetichizada: limites emancipatórios da música no capitalismo administrado.
Escrito por Andershow às 21h12
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Continuação - 1
À música fetichizada corresponde um público cuja audição também teve uma regressão na recepção das obras, isto é, uma regressão na audição: a perda da liberdade de escolha e da possibilidade de conhecer a música e a falta de pertinência de tal conhecimento, levou-o a uma audição infantilizada, atomizada – a difusão propagandística da música (mercadoria) impele o ouvinte a ouvi-la e comprá-la por coação. Uma música que acompanha um comercial torna-se não-estranha ao ouvinte na medida em que este consome a propaganda: “(...)O caráter fetichista da música produz, através da identificação dos ouvintes com os fetiches lançados no mercado, o seu próprio mascaramento. Somente esta identificação confere às músicas de sucesso o poder que exercem sobre as suas vítimas. Opera-se esta identificação na seqüência do esquecer e do recordar. Assim como cada anúncio publicitário se compõe do que é discretamente conhecido e desconhecidamente discreto, da mesma forma a música de sucesso, na penumbra do seu conhecimento subconsciente, permanece benfazejamente esquecida, para tornar-se por alguns instantes dolorosamente clara, como na luz repentina de um refletor. É-se quase tentado a equiparar o momento desta recordação com aquele em que ocorrem à vítima o título ou as palavras do início do refrão da sua música de sucesso: talvez se identifique recordando-a, e assim incorpora a sua posse. É possível que esta coação o leve a refletir sobre o título da música de sucesso. O texto escrito debaixo das notas musicais, que permite a identificação, não é outra coisa que a marca comercial da música de sucesso”. Tal modo de ouvir é desconcentrado, sem necessidade de apreender a totalidade da música; assim, apreende-se átomos desta, isto é, “intervalos melódicos surpreendentes, modulações invertidas, erros deliberados ou casuais, ou aquilo que eventualmente se condena como fórmula mediante uma fusão particularmente íntima da melodia com o texto. Também nisto há concordância entre os ouvintes e os produtos: a estrutura, que não têm capacidade de seguir, nem sequer lhes é oferecida”. Isto é, os ouvintes recebem a música que podem ouvir, racionalizada e infantilizada/fetichizada.
Escrito por Andershow às 21h06
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FETICHISMO DA MERCADORIA E MÚSICA FETICHIZADA: LIMITES EMANCIPATÓRIOS DA MÚSICA NO CAPITALISMO ADMINISTRADO
Para Weber, a racionalização é a característica do Ocidente e, assim, a música ocidental também expressa esta característica, afinal é inegável que houve uma “progressiva racionalização”, comenta Adorno sobre Weber: o Ocidente viu sua música passar pela “reforma guidônica, a introdução da notação mensural, a invenção do baixo contínuo, a afinação temperada, e finalmente a tendência à construção integral da música, irresistível desde Bach, e hoje levada ao extremo”. Porém, o que Weber não considerou foi o aspecto propriamente irracional da racionalização: concomitante à dominação pelo cálculo que permeou os materiais, a música ocidental conservou, também, os “impulsos pré-racionais e miméticos”. Eis o aspecto contraditório da racionalidade ocidental e de sua música.
Vejamos como Adorno trabalha esta dialética racionalidade-irracionalidade do Ocidente dentro do processo de produção da música. Na sociedade administrada, o processo de produção é direcionado por um modelo industrial cuja característica é a divisão social do trabalho. Assim, o processo de produção foi separado, racionalizado, dos outros processos musicais; porém, a autonomia da produção musical encontrou-se em concernência com as “leis de produção de bens para o mercado”: trata-se de uma colonização não-conflituosa do processo de produção musical pelo mercado. Sobre este aspecto, em O fetichismo na música e a regressão da audição, Adorno explicitou o outro lado da moeda: a autonomia da esfera estética teve como revés o primado do valor de troca sobre o valor de uso – tal virada teve efeito na estrutura formal das obras, no modo de ouvi-las e na função social que a música passou a ocupar no capitalismo tardio.
Destacamos a colonização da produção musical pelo mercado nos parágrafos 11 a 14 de O fetichismo na música e a regressão da audição: a constituição estrutural é alterada, “depravada” por um consumo que inculca nos ouvintes “achados/idéias” cuja característica é a continuidade de ampliações e repetições subtraídas de uma organização total, processo que, segundo Adorno, já fora antecipado pelo romantismo e, em especial, por Wagner. Este primado da parte sobre o todo, este romantismo, foi denominado por Adorno de “coisificação”, sob o capitalismo tardio. A ampliação de que trata Adorno, relevando as partes coisificadas, dá ensejo justamente a um processo inverso ao diagnóstico weberiano da Modernidade: “(...) Assume o caráter de um ritual mágico, no qual são esconjurados, por quem reproduz, todos os mistérios da personalidade, intimidade, inspiração e espontaneidade, que desapareceram da própria obra. Precisamente porque a obra dos momentos, em decadência, renuncia à sua espontaneidade, tais momentos lhe são injetados de fora, tão esteriotipados quanto as idéias criadoras”. Ademais, ao contrário do que possa parecer a análises superficiais, a depravação não é conflitante com a Modernidade, ambas “coabitam nos arranjos”: 1) o tempo da música é submetido à coisificação pelo uso das partes de uma música fora do contexto original, recortado, isolado, conjugado e remontado, uma parte fica abstraída da totalidade harmônica e reduzida ao simplismo; 2) o princípio de colorística, também oriundo dos arranjos, manipula as partes barateando a execução ou corrigindo imperfeições dos compositores. Nota-se a colonização mercadológica da música pelo “barateamento”, contradito por Adorno pela própria colonização e refutado pela instrumentação exigida pelos próprios arranjos. Ademais, renovar uma música mais antiga, colorindo-a, dirigindo-a para o homem de negócios, fazendo-a próxima e íntima, isolando as unidades, não torna possível o “encantamento dos sentidos”: “(...) O embelezamento artificial e a exaltação do individual fazem desaparecer os traços de protesto que estavam traçados na limitação do individual a si próprio e frente aos negócios, da mesma forma como na intimização do que é grande se perde a contemplação da totalidade, na qual encontrava o seu limite a má imediatidade na grande música. Ao invés disso, forma-se um falso equilíbrio, o qual a cada passo se evidencia falso, por contradizer o material”. A coisificação é tal que a música apresentada em arranjos assemelha-se a uma gravação: tudo está pronto e acabado, pré-fabricado, digerido, tornando desnecessário todo o empenho sinfônico e, em última instância, destruindo a obra. Adorno denominou este fetichismo de fixação conservadora: o sufocamento da espontaneidade pela fixação de um processo que faz da interpretação uma música como a tocada em um disco – um maestro, sem utilidade à frente de uma filarmônica, assemelha-se a um governante totalitário.
Escrito por Andershow às 20h57
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