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IMAGENS PARA O OCIDENTE, IMAGENS PARA O ABC: ODE AO VOTO NULO.
Narciso adorava contemplar-se, mesmo sabendo que perderia a imortalidade. Porém, nós ocidentais, não gostamos muito de olharmos nosso próprio modo de ser; e mais, alguns de nossos melhores pensadores, ao ofereceram as imagens precisas de nossa ontologia, acabaram por se tornar mais um aspecto do problema – são ocidentais contemplando suas deformações. Narciso contempla-se, o Ocidente mascara-se.
Tomas Morus, no século XVI, preferiu mostrar-nos a ilha de Utopia, virtuosa pela ausência da propriedade privada, do dinheiro e dos problemas sociais que daí decorrem, este não-lugar serviu como imagem ideal e alternativa à Modernidade que se iniciara; porém, se o conteúdo econômico da república ideal de Tomas Morus é emancipatório, o mesmo não se pode dizer do político: tal como o pseudo-socialismo que se construiria séculos depois, a falta de liberdade é-nos explícita – horários rígidos e controlados para atividades do dia-a-dia, pessoas que se vestem igualmente, liberdade de ir-e-vir regulada pelo governo. A rigor, já aqui se colocara o problema que não resolvemos até hoje, a saber, quando solucionamos o problema da distribuição, mascaramos o da eficiência e o da liberdade e, ao tentarmos resolver estes, distribuímos desigualmente os bens.
Diderot, no século XVIII, preferiu mostrar-nos o Taiti ao Ocidente, ótimo recurso literário que acabou por mostrar mais o segundo que o primeiro. O Taiti, recém-descoberto, é exposto a partir do choque cultural entre nativos e colonizadores: enquanto lá se vive muito próximo da “natureza” e, portanto, da felicidade; os franceses (e o Ocidente por extensão) afastaram-se da natureza e criaram códigos propriamente antinaturais: as leis e a religião. A imagem que é trabalhada aqui é de um conflito no Ocidente entre três esferas: a natural, a civil e a religiosa – para conduzirmo-nos por uma, encontramo-nos em contradição com as outras. O Ocidente é visto como artificialidade, como o reino da infelicidade. Tomas Morus leva o Ocidente às águas claras de um riacho e faz com que ele veja seus problemas econômicos, Diderot força-o a ver seus problemas políticos e da vida privada: no amor, por exemplo, ao orientarmo-nos pelos códigos civil e religioso, deixamos a natureza de lado e caímos na convenção do casamento.
Samuel Huntington, para falarmos dos últimos acontecimentos, trabalha a imagem de nossos problemas culturais: o capitalismo ocidental, mercantilizando e racionalizando todos os âmbitos da vida pelo cálculo, leva a “cultura de Davos” a todos os cantos do planeta – ocidentaliza a fórcipes os não-ocidentais e globaliza um estilo de vida insuportável para muitas culturas. A reação do mundo não-ocidental salta aos olhos: ressurgimento e fundamentalismo religiosos, em especial, o islâmico, funcionam como bandeira de luta contra as mazelas que intoxicam todos os lugares invadidos pelo Ocidente. Huntington faz o Ocidente reconhecer sua culpa pelos conflitos atuais – somos terroristas a intoxicar o mundo com o capitalismo.
José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira e em Ensaio sobre a lucidez, oferece uma imagem de nossa vida sórdida: procuramos impulsionar o que chamamos de democracia para todo o mundo, mas aqui mesmo, em nossos países liberais e laicos, a democracia é submersa diante dos problemas criados nas duas ficções: na primeira, uma cegueira estende-se por toda a cidade e para tentar contê-la, o governo coloca em reclusão todos os cegos, privando sua liberdade cada vez mais; na segunda, com 83% da população de uma cidade votando em branco, o governo promove ações terroristas contra os cidadãos e investiga-os como em uma ditadura. Saramago mostra-nos o quão antidemocráticos somos – ei-nos, os ditadores.
Se Narcísio vai contemplar-se nas águas do rio, o Ocidente vê sua imagem corromper as águas. Tais imagens são os problemas que temos, também, aqui, no Grande ABC: diariamente, os jornais mostram-nos os bolsões de miséria espalhados de Diadema a Rio Grande da Serra, administrações públicas descoladas dos interesses da população, um modo de vida calculista que se sobrepõe sobre aspirações individuais, apelos gratuitos e saudosistas por autoritarismo. Tais problemas permeiam todo o Ocidente e resolvê-los é uma tarefa que se impõe para além da imanência do funcionamento tradicional da sociedade: olhemo-nos. Olhemo-nos para nos ver, para não entregarmo-nos a nenhum dos cretinos que querem usurpar-nos de nossa própria representação. Votai nulo, meus camaradas!
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Escrito por Andershow às 18h35
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